Frei Fidélis
As estórias e lendas sobre o local são bastante antigas, mas se popularizaram depois dos estudos de Frei Fidélis Maria de Primiero, um frade Capuchinho que permaneceu em Botucatu nos anos 50.
Estudioso da história antiga, Frei Fidélis interpretou as Três Pedras como um dos antigos templos de adoração à Satã, e afirmava que em sumério o vocábulo Botucatu significa “Templo da Serpente entre as Pedras”. As teorias do Frei vão além e dizem que a cidade e os municípios que a cercam pertencem a uma região onde há milênios se realizava sacrifícios em louvor ao demônio.
Há também uma estória que diz que os Jesuítas que catequizavam o interior do país passavam pelas Três Pedras quando foram atacados por índios selvagens.
Contam que os Jesuítas esconderam, na pedra do meio, um enorme carregamento de ouro, mas com o massacre, perdeu-se o local onde até hoje encontra-se o tesouro.
Frei Fidélis de Primiero
* Primiero (Itália), 06.01.1885
+ Botucatu-SP, 19.02.1968
Frei Fidélis de Primiero (Bernardo Mott), filho de João Batista Mott e Joana Simeoni, nasceu aos 6 de janeiro de 1885. Entrou para o seminário seráfico em 1897, em Taubaté, sendo também um dos primeiros seminaristas e noviços de nossa Província. Vestiu o hábito aos 4 de fevereiro de 1900, das mãos de Frei Luís de São Tiago, tomando o nome de Liberato, depois mudado. Professou a 5 de fevereiro de 1901. Profissão solene a 6 de fevereiro de 1904. Ordenado sacerdote aos 16 de junho de 1907, com Frei Modesto de Taubaté, por Dom Duarte Leopoldo e Silva, na antiga Sé paulistana. Já em 1910 está lecionando no Colégio Seráfico de Taubaté, onde foi também Reitor do colégio diocesano em 1911. Em 1913 está em São Paulo, como diretor de LA SQUILLA. Nesse ano foi nomeado superior no convento Imaculada Conceição, cargo que exerce até 1916. Posteriormente, de 1924 a 1927, foi diretor e professor do Seminário Seráfico em São Paulo; em 1932 também e professor no Seminário que já está em Piracicaba.
Aos 19 de julho de 1932 seguiu como capelão das tropas paulistas, até setembro. De 1933 a 1936 é superior em São Paulo, diretor de LA SQUILLA, ANAIS, e Colégio Imaculada Conceição.
A partir de 1938 até 1942 foi Custódio Provincial. Apesar, de muito culto e zeloso, não era talhado para tal cargo; daí as diversas e inúmeras dificuldades encontradas para exercê-lo. Tímido em demasia, não tinha a necessária energia e autoridade na presença dos súditos que merecessem uma correção ou orientação; diz-se que por várias vezes tentou renunciar ao cargo.
Frei Fidélis foi também competente professor de filosofia e teologia. Grande cultor de nossa língua e da História da Ordem, deixou vários livros, como: “CAPUCHINHOS EM TERRA DE SANTA CRUZ”, que escreveu de parceria com Frei Modesto de Taubaté, em 1942; – “OS M1SSIONÁRIOS CAPUCHINHOS NO BRASIL”, 1929, também com colaboração de Frei Modesto.
Competente pedagogo, dedicou-se muito à Catequese religiosa e até escreveu: “PEDAGOGIA DO CATECISMO” – “PONTOS DE RELIGIÃO PARA CATEQUISTAS DE CRIANÇAS” (sob auspícios da comissão arquidiocesana de instrução religiosa) – São Paulo, 1936. – “FOMOS E SOMOS A ATLÂNTIDA”. “AMÉRICA PRÉ-HISTÓRICA E HÉRCULES” (1957) e outros, como “NOIVA E LEPROSA” sob o pseudônimo de Peregrino Vidal.
Foi um dos pioneiros do ensino de Catecismo nas escolas e um Catequista ativo e batalhador. Por mais de 25 anos foi diretor e redator de ANAIS FRANCISCANOS, trabalhando também no LA SQUILLA através de artigos e como redator. Escrevia para outros semanários e jornais, especialmente em Botucatu.
Por muitos anos seu hobby preferido foi o estudo do sumério e da Pré-História da América.
Como afirma Frei Marcelino Ruivo, “onde quer que residisse, esse ‘judeu’ notável terá deixado a marca de seu gênio e de suas virtudes. Lia para mim seus ‘estudos’. Pude apalpar à saciedade a largura que ele deu ao carisma de pesquisador linguístico. Fixou-se, (ainda não sei como atinar com isso) no Sumério a ponto de ‘descobrir’ uma segunda História oculta de baixo da História Bíblica e das Lendas Tupis, re-lida naquele idioma. É sabido que dava à re-leitura uma feição todo especial, todo sua, mercê de interpretar subjetivamente o Sumério. Seja como for, esse seu carisma atraíra a curiosidade científica de muita gente importante, principalmente de seus amigos”.
São, de fato, interessantíssimos esses estudos de Frei Fidélis. Faz toda uma “exegese” de certos capítulos da Bíblia, interpretando-os – parece que logicamente – à luz do Sumério e neles descobrindo uma História oculta. O mesmo se diga de suas obras citadas “Fomos e somos a Atlântida” e “América pré-histórica e Hércules”.
Suas interpretações bíblicas, em papéis manuscritos ou batidos à máquina, parecem gritar urna profunda convicção de quem as escreveu. E quando alguns da cúpula da Ordem tomaram conhecimento das mesmas, assustaram-se e perguntaram se Frei Fidélis havia descoberto algum importante documento ou escrito relacionado com a Santa Escritura. Quem sabe, um dia, algum pesquisador competente e versado em exegese, hebraico, grego, possa dar parecer abalisado sobre o que esse estudioso frade escreveu.
Sobre as virtudes de Frei Fidélis, prossegue Frei Marcelino, que privou muito de sua amizade:
“A meu ver, salientou-se na pobreza franciscana e obediência. Estando hospitalizado, precisou de lenços. Ao apanhá-los em sua cela descobri quão pobre era ele. Envergonhei-me de minha ‘riqueza’. Não tinha sequer um lenço em condições de uso: dei-lhe os de meu uso. Vi uma cela praticamente nua. Extremamente asseada e tremendamente pobre, como o era sua pessoa.
“Creio seja, este meu testemunho, algo de singular valia. Sempre o encontrei a postos, dando de si o melhor que tinha a serviço do ministério sacerdotal. Preciso, exato, lúcido, esclarecedor e modesto, reconhecia sua limitação no campo da oração experimental de maior profundidade (fôra meu confessor e até certo ponto confidente de vida interior).
“Em Botucatu fruí intensamente a amizade que ele me dispensava nas recreações. Era vivo, sagaz, observador arguto e revestido de uma capa de malícia descompromissada. Alegre. À tarde, véspera de sua morte, ao fazer um gracejo recuperou momentaneamente a força da voz (de ordinário era apenas um fiozinho). Achei estranho aquilo. Naquela manhã de domingo, foram chamá-lo para celebrar. Seu corpo estava no chão, ao lado da parede, noutra banda da cama…(…) – Frei Liberato inclinou-se sobre o corpo mergulhado em flores no caixão e exclamou com certa maravilha: ‘Tem bom cheiro’!! É que o Frei Liberato não sabia que eu aspergira algumas gotas de perfume no rosto do velho e notável ‘judeu’…”
Frei Fidélis faleceu no dia 19 de fevereiro de 1968 em nosso convento de Botucatu. Todos os dias celebrava uma missa pela manhã e outra às 19,30. Nesse dia não apareceu. Foram procurá-lo e o encontraram morto. Seu corpo ficou exposto no Santuário. As exéquias foram celebradas na manhã do dia 20, sendo oficiante o Sr.. Arcebispo Dom Frei Henrique Golland Trindade acolitado pelo Padre Provincial Frei Daniel de Conchas e pelo Guardião Frei Ildefonso de São Paulo (Focaccio). Participaram da Missa também o Sr. Bispo auxiliar de Botucatu, Dom Sílvio Dario, numerosos sacerdotes e religiosos. O santuário estava repleto, sendo numerosíssimas as comunhões. O Exmo. Sr. Arcebispo, antes da encomendação, proferiu sentida e comovente oração, na qual apresentou Frei Fidélis como modelo de sacerdote e de franciscano, pobre, humilde, recolhido, pronto para os trabalhos do ministério, sobretudo do atendimento das confissões e dos doentes. Era o confessor de todos os sacerdotes da cidade.
“Religioso humilde e piedoso, sempre entregue ao trabalho, não perdia tempo. Homem apostólico e sacerdote zeloso, foi sempre pronto aos trabalhos do ministério. No dia 16 de junho do ano passado, celebrando o jubileu de diamante de sacerdócio, foi alvo de especial homenagem por parte das autoridades eclesiásticas e civis e por parte do povo de Botucatu. A Câmara Municipal de Penápolis também enviou ofício de pêsames pela morte de Frei Fidélis, tendo sido aprovado um minuto de silêncio em memória do sacerdote e religioso exemplar, que residiu naquele convento por alguns anos.
“Sua saúde não andava boa. Sendo, porém, de compleição resistente, superara anteriormente dois ataques cardíacos e se recuperara satisfatoriamente, apesar de sua elevada idade. Um edema fulminante o deve ter prostrado definitivamente para os combates da terra, levando-o para o céu, na idade de 83 anos, 1 mês e 13 dias. “(R.V. maio – 1968, p. 57).
“Anais Franciscanos” assim se refere a Frei Fidélis:
“Humilde e piedoso em seus atos e palavras, sacerdote e religioso exemplar, deixa-nos lembranças imorredouras de gratidão e saudade..
“Seus funerais, custeados pela Prefeitura Botucatuense, como homenagem do povo ao seu grande amigo e benfeitor, foram realizados no dia 20 de fevereiro, às 8 horas”. (A.F. 1968, pág. 20).
Frei Fidélis era “Cidadão Botucatuense”, título que lhe foi conferido a 17 de junho de 1967.
Nos últimos anos residiu em Penápolis, Botucatu e Piracicaba.
(Cf. AOMC, 84, 141; – REB, junho 1968, p. 503).
