Rubião Junior
Capão Bonito foi o primeiro nome de Rubião Júnior. Nome devido ao encantamento com que o morro, a mata, o horizonte, o clima, envolviam o passante.
Entrou para a história ao redor de 1.855, quando o governo ergue um posto fiscal para recolher taxas que gravavam cada burro ou mula, que transitavam por aí. Esses animais vinham do Rio Grande, rumo de Franca, Minas Gerais e Bahia. De Capão Bonito saíam pelo vale do vizinho, rio Araquá. O posto existiu até 1.891, quando extinto pela Constituição republicana. Dele restaram uma porteira de ferro, poucas construções, pasto e o último responsável, Antônio Pais de Madureira, tão entusiasta pelo Capão Bonito que para ali atraiu tanta gente quanto pôde. Tanto faz que muitos o consideraram o fundador da localidade.
Pelo inicio do século XX, a ferrovia e a crença de que bons ares curavam moléstias pulmonares, fizeram do Capão Bonito um centro de atração. A chegada de numerosos colonos italianos para sítios e chácaras, de ferroviários, de famílias de doentes, deu animação e giro financeiro ao povoado.
O Capão Bonito teve, pelos anos vinte e trinta, mais hotéis, restaurantes e pensões familiares do que, proporcionalmente, algumas cidades. A sua cozinha caipira e a italiana, a hospitalidade, ficaram famosas.
Afirmou-se que a Sorocabana alongava a parada dos trens a pedido de passageiros que escolhiam o Capão Bonito para comer bem e descansar melhor.
De 27 de julho a 1° de agosto de 1.924, o local viu momentos angustiosos com a presença do comando, dos trens da cavalaria do exército revoltoso do general Isidoro Dias Lopes que avançava para a tentativa de invadir Mato Grosso, enquanto, combate feroz, durante dois dias, foi travado na vizinha Botucatu. Seis mil soldados quase, cruzaram o pátio, aguardaram a formação dos trens. As famílias cozinharam para eles; os estoques dos armazéns, as dispensas dos homens foram esvaziados.
Durante aquelas horas, a população e muitíssimos refugiados vindos da cidade, entregaram-se à proteção do Santo querido do local: Santo Antônio de Pádua.
A devoção revela o haver sido trazida e cultivada pelos italianos. Um deles, Arcângelo Frederico, depois que considerou milagrosa a cura de sua esposa gravemente doente.
Arcângelo Frederico escolheu o ponto mais alto entre as rochas do pico do morro do Capão Bonito e ali cavou nicho no qual colocou a imagem do santo e, ao pé da mesma, uma lamparina. Em ação de graças, fez o voto de, todas as noitinhas, fizesse o tempo que fizesse, fosse qual fosse o seu estado de saúde, subir ao topo, e não havia caminho para ali, a fim de acender a lamparina. Cumpriu o voto por anos e anos, sob chuva, sob vento, sob agravos a sua saúde. A lâmpada do nicho tornou-se referência e lenda para os que ali viviam e para os que habitavam a vila, para os que passavam nos trens. Ao anoitecer, a lâmpada não faltava luzia, ao pé da imagem.
Com o tempo, o crescido número de fiéis e de beneficiados por graças, decidiram acolher o santo em local mais amplo do que do nicho. Cogitaram de uma capela cuja construção foi iniciada depois de entendimentos com os proprietários do terreno. Devotos abriram trilhas e transportaram, nos ombros, as primeiras remessas de material. Frederico, envelhecido, adoecera. Sem permitir que os parentes ou amigos o substituíssem na tarefa de acender a lâmpada.
Na tarde de 16/05/1923, quando ocorreu a notícia do seu agonizar, o povo da vila, gente vinda de longe a cavalo e em automóveis, postou-se no campo, voltados para a pedra do morro do Capão Bonito. E correu a notícia: “Frederico Morreu!”. Com mais firmeza, com maior ansiedade, os olhos dos fiéis e de descrentes curiosos se firmaram no velho nicho. Quando o escuro da noite chegou ao morro, a lâmpada brilhou. E Frederico estava morto.
Mas Santo Antônio do Capão Bonito, atento ao sacrifícios dos muitos anos que o devoto subira o morro, teria, com seu hálito santo, feito acender a luz do morro do Capão Bonito. Um grito de espanto e maravilha sacudia a noite e envolveu o morro, vindo de léguas ao redor. Essa é a mais bonita das lendas não só do Capão Bonito, mas de todo o nosso país. A lenda do quanto pode e consegue o empenho de um homem de fé e palavra.
Começaram as romarias e solenidades reunindo, no 13 de junho, milhares de fiéis. Durante anos, a data foi declarada feriado municipal.
Mais tarde, visando a eliminar a duplicidade de nomes de localidades, uma lei mudou denominações de vilas e cidades. Capão Bonito de Botucatu passou a ser Rubião Júnior, homenagem política a um presidente do Estado.
Artigo de Hernâni Donato, escritor, membro da Academia Paulista de Letras e presidente do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo.
Fonte: Jornal A Cidade – 20/06/2000
