Cururu é o repente, o desafio trovado ao som de violas do Médio Tietê.

São numerosos, afamados e respeitados os cururueiros (os trovadores) da região.

Não há Festa, ou Pouso de Bandeira do Divino sem o cururu que pode varar a noite num revezamento de várias trovadores. E não há cidadão que arrede pé diante de uma porfia de canturiões (cantadores).

Ocorrência: Conchas, Laranjal, Piracicaba, Porto Feliz, Tietê e Botucatu.


cururu

Em Botucatu, temos a semana Angelino de Oliveira, que celebra diversos artistas da cultura popular, e claro, sempre abrindo a oportunidade para violeiros e curureiros, num espetáculo único, original de nossa região.

O que é cururu?

Concebido como dança de roda, na zona rural da região do Médio Tietê, o Cururu foi levado como espetáculo ao público urbano, pela primeira vez em 1910, por Cornélio Pires.

Apesar de ser inicialmente dançado, o Cururu é sobretudo, um Canto de Repente, de modo que as letras, a melodia e a música são feitas com total improviso.

Cada improviso deve respeitar um tipo de regra: as rimas dos versos de repente obedecem às carreiras, que podem ser do “A”, que implica como rimas no verbo “…ar”, por exemplo: “dançá” e “cantá”; do Sagrado, com rimas em “…ado”, por exemplo: “cansado” e “desajeitado”.

Embora conduzido ao som de viola, que marca o compasso e pelos versos do cururueiro, o Cururu também tem na sua tradição, uma participação do público, que pode aplaudir uma combinação brilhante de palavras nos versos, ou então, criticar o desempenho do canturião, quando este perde o compasso da viola e “…perde a batida”.

Totalmente improvisado, mas cumprindo regras determinadas pelas tradições folclóricas, o Cururu foi criado por motivos religiosos, com base em eventos da igreja Católica, principalmente nas Festas em devoção ao Divino Espírito Santo, quando na hora em que ocorre o “pouso do divino”, o cururueiro começa a cantar para saudar a chegada do Divino.

Esse é o considerado “auge” de uma apresentação de Cururu, onde o canturião deve mostrar todos os seus conhecimentos e habilidades para rimar versos bíblicos e com eles, desenvolver dentro deles, uma história.

Assim como uma narrativa escrita, o Cururu é uma história cantada, onde o assunto a ser cantado é decidido pelo próprio cururueiro. Na verdade é ele quem dará rumo ao que será tratado durante a “cantoria”.

O Cururu, além de ter motivos religiosos pode ser denominado como canto de Repente, só que o diferencial do repente paulista para os demais, como o repente gaúcho e nordestino, está nas particularidades, que podem ser referidas como diferenciais entre cada uma, mas o que ambas possuem em comum é a improvisação durante a apresentação musical.

Entre outros aspectos, o que mais é exigido de um canturião de Repente é que ele tenha amplo conhecimento, ou seja, deve mostrar que sabe sobre o que está acontecendo e que conhece como ninguém, os versos bíblicos.

História do Cururu

- Tradição Caipira
O Tietê é um rio curioso, ao atravessar São Paulo consegue manter-se vivo e, ao contrário dos outros rios que correm para o mar, ele avança em direção ao interior do estado, levando a tradição e cultura daqueles que nele navegam.

Uma das mais importantes formas de manifestação interiorana brasileira veio através do Tietê, trazida pelos bandeirantes, mas com raízes portuguesas, o cururu.

No início, o cururu, que muito provavelmente tenha sido usado pelos jesuítas para catequizar os índios, era dançado mas o deixou de ser com o tempo, mas a tradição da cantoria permanece viva na região do médio Tietê que abrange cidades como Piracicaba, Tietê, Conchas, Anhembi, Botucatu e Laranjal Paulista,Sorocaba,tatui,votorantin, entre outras.

A simples palavra cururu já causa controvérsias, enquanto alguns historiadores apontam sua origem para um tipo de sapo, outros a atribuem para a versão regional da dança de São Gonçalo, mas histórias a parte, o cururu é rico mesmo em poesia e espontaneidade.

O cantador de cururu é chamado canturião e ele deve cantar em determinada carreira ou linha, que nada mais é do que a sílaba final na qual se deverá fazer a rima, ou às vezes se torna uma letra do alfabeto que pode ser o a, o i ou o s, e dessa forma rimar os versos, sendo que sempre se usam as palavras na forma em que se fala na região, ou seja, na carreira do a pode se usar as palavras cantá e falá, na carreira do i temos como exemplo pedí e subí, e na carreira do s podem ser ditas amanhecê, conhecê e acontecê.

Para iniciar a cantoria, o canturião precisa primeiro fazer uma louvação, que é uma saudação ao povo ou louvação aos santos, só depois é permitido cantar o desafio. O cantador tem liberdade de tempo para cantar e só quando finalizar é que o desafiante pode iniciar a resposta, que precisa ser na mesma carreira.
Quanto aos temas, eles podem ser políticos, sociais, esportivos ou religiosos, sendo que este último é designado geralmente como cantar na letra ou na folha, ou seja, cantar de acordo com as escrituras bíblicas, o que exige grande conhecimento e destreza dos cururueiros.

A tradição do cururu, que também existe nos estados do Mato Grosso, Goiás e até na Amazônia, manteve o seu berço no interior paulista, que é onde viveram e vivem seus grandes nomes.
Cornélio Pires foi quem levou o cururu aos palcos, ainda em 1910 e mais tarde ao rádio.Como todo gênero musical enraizado na cultura do seu povo, o cururu teve seus heróis basicamente na figura de quatro ícones:

Nhô-Serra, conhecido como o Cururueiro do Microfone, foi quem melhor popularizou a imagem de cantador, tornando-se talvez, o mais importante de todos no sentido de difundir a tradição. Morto em 1997, teve nas suas últimas palavras, a tristeza de admitir que o cururu é uma tradição, como outras no país, que não está sendo renovada e conseqüentemente, se extingüindo.

Pedro Chiquito, também falecido, foi mestre na arte do repente e ficou conhecido como o mais eclético de todos os cururueiros.

Parafuso, falecido na década de 1970 e imortalizado por Tião Carreiro & Pardinho com a musica Negrinho Parafuso. Era conhecido como o caçoísta (sarrista), tendo ganho o apelido por rodopiar num salto como um parafuso ao arrematar um repente bem sucedido.

Zico Moreira, o maior patrimônio vivo desta cultura, no alto dos seus 97 anos de idade. Seu Zico exibe saúde e lucidez, quando canta impressiona qualquer pessoa leiga ou letrada na cultura popular. Zico é conhecido como o maior poeta do gênero. De seus repentes saíram verdadeiros poemas como a carreira de São João, na coluna ao lado.

A viola é a companheira ideal do cururu, que diferentemente do repente nordestino, tem função melódica e pode também ter acompanhamento de pandeiro e reco-reco.Como o cururu era dança, depois canto de origem religiosa até a primeira metade do século, ele era praticado em procissões, quermesses e eventos sacros em geral, mas hoje em dia os motivos para os desafios são bem mais diversos e os locais em que ainda são realizados também, basta ter uma viola tinindo que se ouvirá o larai larai de um cantador. Por isso, não se acanhe, se por acaso estiver pela região do médio Tietê, é só avistar algum matuto enrolando um cigarrinho de palha e perguntar onde possa ouvir algum desafio que com certeza vai ser bem informado, uma vez que você vai estar na região onde nasceu Angelino do Oliveira, Raul Torres, Serrinha, Cornélio Pires e Capitão Furtado.

LUIZINHO ROSA autor de PODER DO CRIADOR, gravado por goiano e paranaense

(Silvio Mariano, Piracicaba, SP,)

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Outra história sobre a origem do Cururu:

Tido como um enigma folclórico, o nome “Cururu” sugiu devido aos seguintes motivos:

* A planta, que era cozida junto com o feijão, chamada “Caruru”;
* O sapo, que se chama “Cururu”, porque quando se acasala, pula em uma trajetória redonda.

Apesar de contraditórios, os dois motivos remetem à criação do Cururu, porque nessa época, era costume servir às pessoas um caldo de feijão com caruru, antes de se iniciarem as orações e, como dança de roda, havia uma formação em forma de círculo, onde se localizavam: altar, violeiro e repentista.

Entretanto, muitas pessoas que residem na Zona rural da região do Médio Tietê, assimilaram o nome “Caruru” para designar o canto de repente, de forma que as pessoas mais antigas, que pressupomos que tiveram mais acesso à cultura em termos de originalidade, se referem ao Cururu como “Caruru”.

Curiosamente, o sapo cururu tem seu habitat natural na região que compreende Estados e municípios do nordeste brasileiro e não perto da região do médio Tietê paulista.

Por esse motivo, algumas pessoas indicam como o Canto de Repente paulista, o “Caruru”, para ser fiel às tradições.

Quem Faz … Cururu

Os repentistas Moacir Siqueira e Abel Bueno, realizaram o “desafio”, que no Cururu quer dizer literalmente “um repentista falar do outro”.

Um dos aspectos mais interessantes e hilários do “desafio” é que a cada verso de repente, um cururueiro nota nas principais características do outro – trocando em miúdos – uma observação escrachada, como “nariz de apaga vela”.

Carmelina Toledo Piza é contadora de histórias e reúne em sua coleção, relíquias do Cururu, como shows gravados em fitas cassete e apresentações de nomes como: Pedro Chiquito, Parafuso e Nhô Serra.

Para verificar a importância que os media deram ao Cururu, no auge das décadas de 50 e 60, confira o “pagode” gravado por Tião Carreiro e Pardinho – uma dupla tradicional da música sertaneja “raiz” – intitulada “Negrinho Parafuso”, onde a dupla presta a mais sutil e emocionada homenagem ao cururueiro Parafuso, que chegou a ter alguns incômodos devido a sua fama, como por exemplo, ser escoltado por policiais nas cidades que acolhiam o Cururu como principal atrativo – entre elas:,SOROCABA, Bauru, Cerquilho, Tietê, Piracicaba, Salto, Botucatu, etc.

José Lício é violeiro e entre suas principais atividades está a confecção e reparos de viola caipira (Guitarra acústica de 10 cordas), feitos artesanalmente.

Já, a principal afinação, o “Cebolão”, dispensa comentários, porque a proximidade harmônica das cordas nessa afinação (que pode ser definida com um simples diapasão) facilita muito o trabalho de acompanhamento e composição de música sertaneja, devido ao timbre inimitável da própria viola.

Oscar Bueno é filho do cururueiro Nhô Serra, divulgador de folclore regional e também é violeiro. Sua principal esperança para a divulgação do Cururu está nos diversos meios de comunicação, como a Internet. Em sua opinião, o apoio e divulgação ajudam a população a conhecer melhor o folclore regional, sem tornar essa divulgação banalizada.

Passagem do Cururu

A aparição do Cururu nos media teve seu auge na região do médio Tietê, nas décadas de 50 e 60, no rádio, o que acabou causando certa euforia, principalmente com os Quatro Bambas do Cururu, que eram os canturiões de maior destaque na época.

O que podemos notar, analisando o que aconteceu nesse período, é uma popularização do Cururu em locais alternativos aos da sua criação, sem contar com ajuda efetiva dos media, que iria se concretizar anos mais tarde com o cururueiro Nhô Serra.

Sem dúvida, o que não podemos desconsiderar é a importância do trabalho desenvolvido pelo cururueiro Sebastião Bueno, ou como era popularmente conhecido, como “Nhô Serra”, em divulgar amplamente o Cururu, além do primeiro universo, atingido em 1910 por Cornélio Pires, ao levar o canto de repente para os palcos.

Esse novo universo englobava rádio e televisão, o que de imediato contagiou as cidades que adotavam a tradição e os costumes do Cururu, como a região do Médio Tietê, que compreende cidades como: Tietê, Cerquilho, Laranjal Paulista, Piracicaba, Botucatu, etc.

Inicialmente, a “explosão do Cururu”, que durante a época em que outros fenômenos culturais tidos como mais importantes, como a “Jovem Guarda” e “The Beatles”, conquistavam verdadeiras multidões, as festas religiosas, acompanhadas pelo canto de repente, como: Festa do Divino, Festa do Peixe, entre outras, eram verdadeiras sensação, principalmente, quando contavam com a presença da nova geração de “Bambas”, só que da mídia – como Zico Moreira, Nhô Serra e Pedro Chiquito.

Enquanto, várias formas de Cultura como a dança de roda, modificavam-se e conquistavam cada vez mais espaço nos media, o Cururu, ao manter suas raízes concentradas nas gerações de “Bambas”, que infelizmente não deixaram herdeiros, o que deixou o canto de repente paulista em uma situação complicada. Um dos reflexos da lacuna deixada pelos “Bambas” é a importância da divulgação de evento – causa que é muito reivindicada pelos cururueiros.

Mas isso tudo quer dizer que a cultura morreu?

Diferente do que podemos imaginar, se depender desse motivo exclusivamente, a cultura não morre. A pior circunstância, entretanto é o risco que representa esse esquecimento para as futuras gerações, que terão dificuldade ao se recordar ou então a se localizarem nesse universo que deixou de existir.

Mas isso indica a morte efetiva de uma cultura? Novamente, não. Os motivos são os seguintes: longe do local de concepção (criação), uma cultura nunca morre, nem deixa de ser lembrada. Sem impedimento ou cobrança de quem deseja assistir, mas não vivenciar, essa cultura sobrevive sozinha e, praticamente isolada.

O cururu vai morrer ?

A pergunta, que com certeza mais perturba o folclore é sobre sua continuidade, ainda mais quando nos deparamos com a Teoria da Hegemonia, de Gramsci, que entre outras coisas, explica porque um costume não pode ser simplesmente visto fora da sua concepção, ou seja, fora de seu universo.

Pensar na longevidade do Cururu não significa olhar para a nossa proposta como algo que tivesse proposta de apenas validar a concepção artística e social do Cururu apenas com base em sua importância fora da cultura.

Assim, não podemos considerar que um costume desaparece simplesmente, porque deixa de ser retratada nos media.

Da mesma forma, a ciência, com o papel de elucidar o conhecimento do ser humano, não pode simplesmente se ater a um tipo de visão exclusivamente do que é ou não pré-considerado como científico.

Com isso, ir além das barreiras existentes do que é ou não importante para ser estudado não é apenas algo sensato, mas também demonstrar a plena vitalidade e disposição da Ciência em sair do “senso comum”.

Vários trechos retirados de:
http://www.violatropeira.com.br/cururu.htm
e
http://www.unimep.br/fc/cururu/server/oqecuru.htm