ANGELINO DE OLIVEIRA – O MITO CAIPIRA

angelinoAngelino de Oliveira em 17 de junho de 1889. Ainda criança mudou-se para Botucatu. Morou ainda em Ribeirão Preto, onde cursou a Escola de Farmácia e Odontologia, e São Paulo, onde faleceu em 24 de abril de 1964. Mas foi em Botucatu onde desenvolveu a maior parte da sua atividade musical, sendo o músico local mais cultivado da cidade, embora outros tenham alcançado maior fama como Raul Torres e Antenor Serra, o Serrinha. Em sua homenagem foi instituído, em 1967, o “Dia do Sertanejo”, comemorado no último domingo de junho. Em 1982 foi instituída a semana “Angelino de Oliveira” que anualmente celebra-se na semana que inclui o dia 17 de junho. Existe na cidade a “Escola Estadual de Primeiro Grau Angelino de Oliveira”, bem como uma rua com seu nome na Vila Nova Botucatu. Foi-lhe concedido post-mortem o título de Cidadão Botucatuense.

No entanto o cultivo de sua memória ainda não alcançou sua produção musical. Poucos botucatuenses conhecem mais de 3 ou 4 músicas de Angelino, e foi isto que mais me chamou a atenção quando, em 1998, comecei a pesquisar sua vida.Talvez por isso, o desconhecimento de sua produção musical, criou-se no passar dos anos esse mito de compositor caipira, fato que encontra pouco sintonia com sua obra.

Algumas gravações famosas de Angelino:
Acorda João
Noite de São João
Cabocla do Sertão
Caboclo Velho
Prece de Caboclo
Incruziada
Cativeiro
Saudades de Botucatu
Meu Bem
Festa do Arraiá
Semíramis
Meu País
Meu Primeiro Amor
Tenho Pena dos Meus Olhos
Tristezas do Jeca
Manhãs de Minha Terra
Porque
História Triste

Os textos abaixo foram publicados na imprensa de Botucatu e são resultado da pesquisa que venho realizando sobre Angelino de Oliveira, trabalho iniciado em 1998 para a disciplina de Etnomusicologia do professor Alberto Ikeda, do Bacharelado em Composição e Regência do Instituto de Artes da Unesp em São Paulo, onde estudo.

Sintam-se a vontade para usarem os textos abaixo, mas por favor, façam a referência ao meu trabalho! Isto garante a confiabilidade do seu texto, além de ser o único reconhecimento pelo meu trabalho, até agora realizado todo ás minhas custas.

Onde está a música caipira de Angelino de Oliveira?

Fernando Pereira Binder

Começam na próxima segunda-feira as comemorações da Semana Angelino de Oliveira, com apresentações onde predomina a música sertaneja. Mas até que ponto isso realmente responde pela produção musical deste consagrado compositor?

Hoje são poucos os botucatuenses que conhecem mais de três ou quatro músicas de Angelino, embora nos últimos anos dois livros tenham sido dedicados a ele: o de Paulo Freire, Eu nasci naquela serra, e o de Marilda Cavalcanti, Angelino de Oliveira o inspirado autor de Tristezas do Jeca. Este trabalho mais cuidadoso e sistemática que o primeiro, e reúne farta documentação além da discografia e musicografia.

Todos os dois têm seus méritos, mas nenhum se preocupou em reunir e análisar da obra musical de Angelino.

Desde 1998 venho reunindo as músicas de Angelino de Oliveira, trabalho iniciado na aula Etnomusicologia do professor Alberto Ikeda, no curso de Composição e Regência da Unesp, São Paulo. Consegui reunir 18 obras, algumas em partituras, outras em manuscritos dispersos e em gravações caseiras. Ao que eu saiba é a maior coletânea musical realizada até hoje.

Após reunir este material, o que mais transparece é a inexistência dos gêneros musicais mais consagrados como sendo música sertaneja, como os cururus, modas de viola e catiras. O que surgiu são canções, tangos, valsas, sambas-canções, e até um fox-trot!

Em suas obras o que mais se aproxima da música sertaneja são suas toadas, como a famosa Tristeza do Jeca. Mesmo neste caso específico a música sugere algumas considerações.

Uma das edições desta música, na década de 20, traz na capa a indicação de gênero: Canção. O ritmo da melodia é diferente do hoje se canta, bem como o andamento sugerido na partitura: Lento. Até uma parte da melodia está em altura diferente do que se canta por ai, modificação provavelmente introduzida pela gravação de Tonico e Tinoco, fato já apontado por Paulo Freire.

A primeira garvação de Tristeza do Jeca feita em disco data de 1922 ou 23, interpretada pela orquestra Brasil-América, numa versão instrumental. A segunda saiu em 26 e foi interpretada por Patrício Teixeira (1893 – 1972) cantor carioca, da turma de Pixinguinha e Donga. Em 1937 foi gravada por Paraguaçu, pseudônimo de Roque Ricciardi (1894 – 1976) que ficou famoso como cantor de serenatas, as modinhas, gênero de música romântica muito popular no inicio deste século. Anteriormente ele gravara outras músicas de Angelino. Em 31, lançou em disco Tenho pena dos meus olhos, canção, absolutamente romântica, sem “um pingo de sertão”. Em 36, gravou Lua cheia, que ainda não localizei.

Some-se o fato de Tristeza do Jeca ser publicada em partitura e em época anterior ao primeiro “boom” da música caipira, ocorrido em 1929 com as gravações pioneiras de Cornélio Pires, quando autênticos caipiras entraram finalmente na indústria cultural.

O que foi colocado não tem a pretensão de estabelecer uma nova “verdade”, mesmo porque o trabalho ainda não está acabado. Também não queremos desmerecer o trabalho da Secretária de Cultura. Hoje celebra-se a memória de Angelino com música, e não somente com placas, discursos, nomes de rua e escola e artigos de jornais, como este. O que queremos é ampliar o conhecimento que se pode ter da obra deste músico à luz de novos fatos e informações. E Viva Angelino de Oliveira!

Artigo publicado no jornal Diário da Serra, Botucatu 10/11 de junho de 2000, n.° 1350, Ano IX, pág 6.

Formação e atuação musical de Angelino de Oliveira

Fernando Pereira Binder

Angelino de Oliveira (1888 – 1964) iniciou-se musicalmente na Banda São Benedito por volta de 1908. Além das celebrações religiosas, ela animava retretas de domingo á tarde, apresentações públicas destas corporações nos coretos da cidade. Além de marchas ouviam-se polcas, valsas, tangos e mazurcas: gêneros de música de salão que causaram furor no início deste século.

Em 1911 ele integrava a orquestra do Grêmio Literário e Recreativo, clube criado pela elite botucatuense para incrementar as atividades sociais da cidade. Cabia a orquestra animar os bailes promovidos pelo clube, propavelmente com um repertório de danças de salão.

Por volta de 1917 Angelino já era reconhecido como músico e violonista talentoso quando formará com José Maria Perez o duo Violguita. Mais tarde o duo incorporou o pianista Luiz Cardoso passando a chamar-se trio Viguipi. Apresentavam-se em cassinos, festas particulares e casas de espetáculos em várias cidades do interior paulista, na capital do estado e até mesmo em Poços de Caldas, MG, no famoso cassino Gibrinha.

Em 1940 torna-se o diretor artístico da recém criada rádio PRF-8, onde criou e dirigiu programas como Alma Sertaneja e Hora Literária. Tentou atuar no comércio com A Musical, loja que vendia vitrolas, discos, instrumentos e partituras, e também possuía a Jazz Band Carlos Gomes para a animação de festas, casamentos, batizados e o que mais aparecesse. Não tendo sucesso, Angelino fecha a loja e dedica-se á corretagem de imóveis.

Como se vê sua formação e atuação musical, além do rádio, teve pouco contato com a música caipira sendo sua obra marcada por canções, das quais já reuni 18. Nela, a letra possui certo aroma sertanejo, tal qual Catulo da Paixão Cearense, mas musicalmente pouco possui do universo do caipira.

Artigo publicado no jornal “A Cidade”, Botucatu, 14 de junho de 2000, n.° 808, Ano IX, pág. 2.

O “Catulo” de Botucatu

catutoO violeiro Renato Andrade é taxativo. Pergunte a ele qual é a música caipira mais importante. Renato, que faz tanta careta, nem pisca pra responder: – É “Tristeza do Jeca”! Todo mundo diz assim, no singular. Mas é “Tristezas do Jeca”, no plural. E a música tem dono. Um caboclo chamado Angelino de Oliveira.

Angelino de Oliveira nasceu em Itaporanga, em 17 de junho de 1889. Um ano depois da abolição da escravatura. Menino, muda-se para Botucatu,SP. Era o princípio do seculo 20 e Angelino tem um primeiro modelo musical, o porteiro da escola onde estudava, conhecido como Vicentinho. Um flautista de primeira que encantava o menino.

Em Botucatu, apaixona-se também pelas festas de junho. Não perde um São João. Gosta de ficar em volta da fogueira, ver a travessia das brasas, os desafios cantados e as danças. Anos depois, já em São Paulo, foge para Botucatu todo mês de junho, atrás dos folguedos da infância. Como cita o violeiro Paulo Freire, em seu magnífico livro “Eu Nasci Naquela Serra”, o tema aparece em muitas músicas de Angelino.

“Tem uma flor
Muito vermelha em meu sertão
Que floresce em mês de junho
Quando chega São João.
E a caboclinha do sertão, apaixonada,
Põe no peito uma florzinha
No alfinete pendurada…”

Gostaram? Mais poesia de Angelino:

“E a lua lá do céu do
Meu sertão
Como crianca vai brincando
Perseguindo algum balão
E a caboclada toda alegre e prazenteira
Ao redor de uma fogueira
Toca e canta uma canção…”

Angelino não foi só poeta. Foi melodista e instrumentista dos bons. Estudou violino, violão e tocou trombone na banda de Botucatu. Mas seu instrumento era o violão. Um de seus grandes parceiros na vida e no palco era José Maria Peres, também violonista. Um tocava violão, outro guitarra, e conheceram o pianista e ex-padre Luís Cardoso, que se juntou ao duo. Virou trio. Vi-Gui-Pi: violão, guitarra ,piano.

Tocavam em Botucatu, faziam sucesso em Poços de Caldas, já com a parceria do humorista Viterbo de Azevedo. “Tristezas do Jeca”, a música mais famosa, foi feita a pedido do presidente de um clube de Botucatu.
Angelino resolveu falar sobre o apego do Jeca à sua terra. Saiu aquele lamento belo e triste:

“Nestes versos tao singelo,
Minha bela, meu amô…. ( )
Nessa viola eu canto e gemo de verdade
Cada toada representa uma saudade… ”

Na estréia em Botucatu, “Tristezas do Jeca” é bisada seis vezes. Um sucesso. A primeira gravação de repercussão é de Paraguaçu, um cantor paulista muito popular, amigo de Catulo da Paixão Cearense, o autor de “Luar do Sertão”. E foi Paraguaçu quem apresentou os dois no Rio de Janeiro. Angelino começava a ser chamado de “Catulo” de Botucatu.

“Tristezas do Jeca” faz tanto sucesso que em 1919 acalma um princípio de tumulto num cinema de Barretos…Mas naquele tempo era ainda mais difícil viver só de música. Angelino se mudou para Ribeirao Preto, onde se formou dentista na USP e trabalhou como escrivão de polícia. Um mágico da sobrevivência com alma de boêmio e coração de artista. Mas, sensível, com saudade de Botucatu e da sua serra, voltou prá lá e abriu uma loja de instrumentos, “A Musical”.

Enquanto isso, “Tristezas do Jeca” corria o mundo. Chegou a ser ouvida, na Rússia, por um jornalista correspondente dos Diários Associados, o grande órgão de comunicação da época.

Mas o sucesso não significou nunca prosperidade. Angelino lutou muito para criar os tres filhos. Nunca deixou o rádio. Lançou muitas duplas. Fazia também noitadas em bar. E as músicas se sucediam. Angelino, cara fechada, grande boêmio, tinha aquele coração iluminado de caboclo.

Fazia grandes amigos e grandes sucessos. Segundo o pesquisador Fernando Binder, no conjunto da obra ele está mais para compositor de canções do que para compositor caipira. Não importa a rotulação, vale a alma cabocla. Tanto que, em sua homenagem, o dia 17 de junho é hoje o dia do Sertanejo.

Durante a guerra, Angelino briga com os donos italianos da rádio em Botucatu. Vai para São Paulo. Tonico e Tinoco gravam “Tristezas do Jeca”. Sucesso estrondoso. Nacional. A música inspira tambem Mazzaropi, que faz, em 1961, o filme com o mesmo nome e tema. Fez sem pedir licenca, mas depois pagou todos os direitos de Angelino. Ao contrário de João Pacífico, Angelino era grande conhecedor do campo e da natureza. Era mesmo um grande seresteiro, como Catulo:

“A lua cheia quando nasce em minha terra
É uma fogueira muito grande atrás da serra…”

Angelino de Oliveira morre em São Paulo, aos 74 anos, em 24 de abril de 1964. Em Botucatu, um busto em praça pública o homenageia. Mas o que fica é mesmo sua obra:

“Eu nasci naquela serra
Num ranchinho à beira chão,
Todo cheio de buraco
Onde a lua faz clarão…
E quando chega a madrugada
Lá na mata a passarada
Principia o baruião.”

A gente ouve e geme de saudade.
por EPTV: http://eptv.globo.com/caipira/interna.asp?ID=9654

Festa Angelino de Oliveira

Tradicional festa Botucatuense realizada todos os anos no mês de Junho em homenagem ao compositor Botucatuense Angelino de Oliveira, autor entre outras músicas, do hino caipira “Tristeza do Jeca”.

Festa organizada pela Secretaria de Cultura de Botucatu, e conta com apresentações musicais, feira de artesanato e culinária regional.

Além de resgatar a cultura local, o evento se constitui numa importante parceria com entidades filantrópicas do município, que comercializam seus produtos durante a festa.